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1942 à 2002 - Fizemos
a história da dignidade dos urbanitários

Quando
falamos de Santos, vem em nossa memória o Porto. E isso vem de muito
tempo. O processo então iniciado, que viabilizou como cidade o então
chamado "Porto da Morte" como lugar habitável, colocou fim a um
período em que cerca de metade da população da cidade e seus
trabalhadores foram dizimados pelas epidemias, oriundas da ocupação
humana em uma área alagada - que os canais fizeram baixar o lençol
d'água. E que fez surgir a Ponte Pensil, então instalada para levar
o esgoto até seu destino final em Praia Grande. O porto, as formas
de consciência, as grandes lutas, etc... Enfim toda questão urbana
era centralizada pela situação portuária, o saneamento, a imigração
e migração.
Mas por pouco que se
mencione, enquanto o porto existia, a sociedade teria necessidades
como gás, energia, bonde, o mínimo de saneamento, ou
seja, condições necessárias para
que Santos, enquanto cidade,
universo urbano, sociedade organizada, pudesse existir.
A população urbana, ou
melhor a sociedade urbanizada, não elite, construía Santos. As
condições dos trabalhadores não era nem um pouco reconhecida, nem
pela sua própria gente, povo rude, que abria valetas, desbravava
áreas, expunha a vida diariamente debaixo do sol escaldante de nossa
cidade. A consciência política estava margeada pela própria
sobrevivência, aplaudindo os movimentos operários, portuários, entre
outros e quiçá vendo a vitória dessas outras categorias, tendo a
esperança de que dos reflexos sobraria algum para suas vidas, pois
os urbanos carregavam o serviço sujo e marginal, não tinham
referendada ainda uma categoria.
COMEÇA A ORGANIZAÇÃO
Na
década de
1940, inicia-se um processo de integração da categoria.
Começa a se organizar em nível de associação, e então em 27 de maio
de 1942 é fundada a Associação Profissional dos Trabalhadores nas
Indústrias Urbanitárias, pairada por um espírito fascista. Mas em 1º
de maio de 1943 Getúlio Vargas consolidava as Leis do Trabalho.
A condição de associação perdurou até 1947. A carta sindical estava
difícil de ser aprovada, pois dizia-se que João de Moraes Chaves
fazia parte dos quadros comunistas da época. O recurso encontrado
foi colocar alguém sem qualquer envolvimento político para
formalizar o pedido e assim trazer a legitimidade para a entidade. É
nesse momento que entra para a história do Sindicato Pedro Pece.
Chaves se afasta e ele, Pece, assume a presidência. O objetivo é
alcançado em
28 de julho de 1947.
Inicia-se novo
histórico de lutas
A
entidade começa a exercer seu papel na história de Santos. João de
Moraes Chaves exerceu seu mandato até 1962. José Rocha da Silva
descreve Moraes Chaves como um homem de uma determinação sem igual,
homem que não se abatia com comentários maldosos e tratava seus
inimigos com largo sorriso. Antes de tudo era uma pessoa que
respeitava sua categoria; que nunca destratou um só associado. Foi
eleito vereador com votação invejável.
1948. O
Sindicato abrangia o território de Santos e Guarujá, com o nome de
Sindicato dos Trabalhadores Urbanos de Santos. Em 1952, já
consolidado, começa a ter vida própria, elege nova diretoria.
Seguem-se eleição após eleição, conquistas após conquistas. A
primeira sede estava situada na Praça José Bonifácio, 25. Era
alugada. Não havia a preocupação de a sede ser própria. A
necessidade maior era proteger a classe operária.
Esse
endereço ficou na memória não só dos urbanitários como também dos
carris, que a princípio também faziam parte da Cia. City. Logo
eram empregados urbanitários. Com o passar dos tempos iniciou-se
uma discussão: os políticos da época lançaram a polêmica de
inconformidade "desses ingleses serem donos de tudo aqui e enviarem
todo o dinheiro do Brasil para o Canadá". Foi entendido no período
como monopólio o fato de ser a Cia. City a administradora das
energias elétrica, hídrica e do gás e transportes.
Entre 1952 e 1953, sob o governo de Getúlio Vargas, o
Sindicato consegue uma doação que até hoje é patrimônio aquém do
estimado pela categoria: o terreno para a colônia de férias.
1956. E mais uma conquista: o Sindicato consegue ampliar a
base territorial, atuando nos municípios de Cubatão e São Vicente,
vindo a chamar-se Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Urbanas
de Santos, São Vicente, Guarujá e Cubatão.

EXPRESSIVIDADE NO
FÓRUM SINDICAL
1958/59 . As
entidades de luta criam o Fórum Sindical de Debates da Baixada
Santista. Período riquíssimo para a história não só desta entidade
como também para a história dos sindicatos de Santos e região.
Santos e Baixada eram sede do maior número de sindicatos no país e
apesar das diferentes categorias, os problemas e dificuldades, mesmo
perante a Capital do país, eram similares. Moraes Chaves propôs um
programa de trabalho, o qual consistia reunir os principais líderes
dos diversos sindicatos da Baixada Santista. Num período de
amadurecimento, tanto político-regional como nacional, auxiliaram
uns aos outros. Foi construída, inclusive no salão da sede, uma
tribuna para oratória.

SURGE O
PRIMEIRO PATRIMÔNIO ADQUIRIDO
1959/60. É comprado o primeiro patrimônio da entidade: um
terreno com uma casa deteriorada na Rua General Câmara. O terreno
era bom, porém, mal localizado.
A PRIMEIRA SEDE PRÓPRIA
1964/65. O
terreno da General Câmara estava envolvido em grande dívida e foi
vendido. Logo depois é conquistada a primeira sede própria, na rua
Júlio de Mesquita, 84. Na opinião de Brasil Neto, "o governo militar
foi um mal necessário", mesmo que ele próprio tenha passado por
momentos de extrema dificuldade, sendo seriamente inquirido pelos
militares e por muito pouco não visitou o navio prisão, Raul Soares.
"Não passei por essa situação dramática, como muitas lideranças na
época, por ter amigos fiéis", afirmou Brasil Neto. No período, os
reajustes salariais eram estabelecidos por decretos governamentais.
Brasil conversava com as empresas, conseguia um aumento
proporcionalmente maior e daí partia para negociar com o governo,
para que este autorizasse o repasse aos trabalhadores.
EXPLODE O GASÔMETRO.
PÂNICO
A explosão no
gasômetro, ocorrida em 9 de janeiro de 1967, foi de tal forma
violenta que o dia ficou marcado na memória dos moradores da Baixada
Santista. Segundo um morador da época, residente em Guarujá, a
explosão soou de tal forma que deu para ser ouvida por quase toda a
região.
O episódio, além de
ficar na memória de todos pelo grande estrondo, marcou a trajetória
presidencial de Brasil Neto.
Os funcionários que
pertenciam a CSEG (Cia. de Serviços de Eletricidade e Gás S/A)
ficariam a mercê da sorte, não fosse a firme postura do então
presidente do Sintius. Segundo seu depoimento, a companhia não tinha
como operar.
"Era o caso de que
fala a lei. Por motivos fortuitos ou de força maior, ela teria razão
de fechar, como fechou. Não tinha como operar, mas eu tinha o dever
de proteger o pessoal, e aí entramos em grandes negociações para não
deixar aquele povo todo desamparado. Conseguimos que todos fossem
indenizados e por fim fiquei incumbido de orientá-los do que fariam
com o dinheiro que receberam. Alguns queriam abrir botecos, outros
quitandas, mas que eu sabia que não era o momento e o risco era
muito alto. Eles confiavam no Sindicato e na amizade que tínhamos,
pediam então para aconselhá-los."
Foi em 1967
que o Sindicato adquiriu também o primeiro equipamento dentário para
o seu próprio consultório. Consultório que é hoje tradicional entre
os associados.
Durante a ditadura
militar, período complicado para o Sindicato, o governo estimulava o
assistencialismo e a entidade trabalhava também nesse sentido.
Brasil coloca uma frase muito interessante, que retrata tanto as
dificuldades como a habilidade para exercer seu mandato naquele
período: "O patrão é como uma vaca leiteira. Só é preciso saber
ordenhar para conseguir o que precisa". No período houve vários
cursos, entre eles o de alfabetização, nos quais alguns militares,
mostrando proximidade, faziam-se presentes nas formaturas.
CONQUISTA-SE A CLÁUSULA 21
Uma grande
conquista do Sindicato foi a colaboração na criação da SBS (Cia. de
Saneamento da Baixada Santista), só para a Baixada Santista.
Hoje discute-se e
contesta-se a questão da municipalização. No tempo de Brasil Neto
ela existiu. Depois a Sabesp encampou a SBS, isso já em plena
revolução.
1969 a 1971. Nesse período, já instalada e com autonomia, a
companhia veio para o litoral, uma importante prova de sucesso. O
primeiro contrato coletivo, sob o artigo 613 da CLT, dentro dos seus
requisitos, foi também o primeiro do país. Uma das vantagens
conseguidas nesse acordo foi a criação de uma cláusula de
estabilidade no emprego, a famosa cláusula 21. Alguém só poderia ser
mandado embora por justa causa. Quem é antigo pode comprovar que a
situação se mantém até hoje. O contrato vigorou por 10 anos e,
na época, o governador de São Paulo era Abreu Sodré.
SURGEM OS G0's
Outro
direito incorporado ao contrato foi a complementação de
aposentadoria. Existia uma lei, mas essa lei transferia para a
Fazenda do Estado a responsabilidade do pagamento da complementação.
Então, foi vinculada a complementação ao contrato coletivo.
COLÔNIA DE FÉRIAS É ORGULHO
A grande
paixão do Brasil Neto, em seu mandato e até os dias de hoje, é a
Colônia de Férias "Ministro João Cleófas". Pouco antes de eleito
em seu primeiro mandato, houve assembléia para decidir o que seria
feito do terreno da colônia. A intenção era o loteamento da área.
Brasil Neto tomou a frente da situação, defendendo a tese de que não
deveria ser repartida qualquer parte da área. Ela não foi separada e
até hoje colhem-se os frutos. A colônia foi estruturada, construídos
o ambulatório, restaurante, cozinha, até uma pequena sala de
projetos de onde sairiam os de nivelamento do terreno e das
edificações. Ainda na gestão de Brasil houve, em Praia Grande, o
Primeiro Congresso dos Urbanitários do Estado de São Paulo. Em 1980,
discurso de encerramento das atividades como presidente do Sintius.
PERCIVAL ASSUME
Vem
um período de reorganização em nível nacional. As estratégias de
ação mudam, a ditadura ruiu, a filosofia de lutas mudou, a censura
caiu, as formas de ação tomam novo fôlego, a cautela ainda existe,
pois ninguém imaginava o dia de amanhã, os resquícios de tanto tempo
de silêncio ainda assombram. As idéias que persistiram por mais de
20 anos agora iniciam seu período de colheita. Como foi o caso do
adicional de periculosidade: 1980. Eleições. E ganha Percival
Teixeira Filho. Sangue novo na política sindical, vindo da CIPA.
Concorre com a chapa 3, a chapa do "azarão", é eleito e cumpre dois
mandatos. Era promessa em sua plataforma, pois ideologicamente
achava que mais de dois mandatos virava profissão e esse não era seu
objetivo. Percival assume a presidência do Sintius em
1981, ainda na sede da Julio de Mesquita. Logo depois a sede
mudaria para a rua Antonio Bento, local um pouco maior e mais
funcional para as atividades sindicais. O novo presidente
defronta-se com um caixa bom e o dobro em dívidas, além de uma
contribuição sindical muito pequena e uma freqüência de mensalidades
muito menor. Não havia em sua época relação clara do dirigente
sindical com a base e isso passou a existir desde o primeiro
mandato. Percival passava o dia andando nas bases e em todo
espaço territorial, do litoral norte ao Vale do Ribeira. Entre
Sabesp e Sindicato foi efetivamente a primeira negociação real neste
mandado, com a ajuda de Hugo Perez (presidente da Federação).
Em 1985 é assinada a regulamentação do adicional de
periculosidade para os eletricitários. O ato "garante o direito para
mais de 100 mil trabalhadores em todo o Brasil", como bem coloca um
informativo daquele período.
Ocorreram outras
conquistas de muito valor para a categoria: a complementação de
aposentadoria, que há muito tramitava na Justiça; a reintegração dos
demitidos de 1975, o restabelecimento do salário-família. A
credibilidade do Sindicato foi tomando tal corpo que havia moral e a
petulância suficientes para ir a Brasília e convidar para advogar
pela entidade o presidente aposentado do Tribunal Superior do
Trabalho, ministro Russomano. Ele aceitou e vieram várias
conquistas.
1986 - A greve
da Gafieira: quem tá fora não entra, e quem tá dentro não sai.
Percival passa
obviamente por alguns disabores em seu mandato, mas a forma como
saiu do Sindicato não representou o real reconhecimento que lhe era
devido. O grupo, diretoria e categoria, impõe que Percival continue
encabeçando a presidência da chapa para um terceiro mandato, para
que se permitisse que a linha de pensamento e conduta perdurasse e
pudesse se consolidar. Mas o terceiro mandato não era sua proposta
dede o início da gestão no Sindicato, pois para ele o que existe de
pior é o continuismo. E teve sim uma votação esplendorosa, de ceca
de 90 por cento da categoria, que agora conhecia bem em quem estavam
votando. Passando certo tempo, diziam nas empresas: "seria bom que
você Percival não viesse para cá, à base pode achar que você está
voltando".
Marquito entra para o
Sintius
Foi
1986 o ano em que Marcos Sergio Duarte tem seu primeiro contato
e envolvimento com o Sindicato. Como piqueteiro em Vicente de
Carvalho. Nesse tempo ele conhece Luiz Sergio Trindade, que era
diretor na gestão de Percival. Teria logo em seguida uma eleição
para delegado sindical. Marquito, quase 10 anos de empresa, se
filiara nesse tempo. Ganhou a eleição com 73 votos, uma votação
surpreendente. Quando assume, em março, Percival deixa a presidência
do Sindicato.
1987. Carlos
Alberto Petrasoli assume a presidência e Jeferson passa a ser
vice-presidente. O mandato vai até fevereiro de 1990, período
crítico para o Sindicato, que perdera seu principal dirigente.
1989. Grande greve na Sabesp. Jeferson Araujo passa a
fazer um trabalho de oposição mesmo dentro da diretoria - ele e Luiz
Sergio, os dois únicos diretores que racharam com a situação. Até
então o Sindicato nunca tinha tido um presidente da Sabesp, apesar
de esta já ser maioria. E Jéferson, com bastante habilidade, vendeu
a idéia. A eleição foi ganha e ele assumiu em 17 de fevereiro de
1990.
A GREVE MARCANTE

Em 1990, outra greve
na Sabesp, de oito dias e meio. Pensava-se que não daria resultado
positivo devido às demissões ocorridas em 1989, mas a categoria
estava tão indignada que a greve aconteceu com sucesso.
1991. Greve nas energéticas. Mesmo ano, dia 28 de fevereiro,
greve geral em Santos. Os portuários estavam em greve há quase 30
dias e aí houve demissão em massa. Todos demitidos.

Foi chamada greve
geral, um orgulho para todos que viveram aquele dia. A greve teve
direito a caminhão de som e pararam a Sabesp, Eletropaulo, lojas,
farmácias, tudo. Às 4 horas da tarde daquele dia, veio a notícia de
que todos seriam readmitidos.

No mesmo mandato
ocorreram várias conquistas, dentre elas: plano de cargos e salários
na Sabesp, Fundação Sabesprev e cesta básica extensiva aos
aposentados. Bons acordos. Nas energéticas, em 1991, um aumento
diferenciado. O Sintius conquistou para os eletricitários da região
3% a mais que os sindicatos mais fortes do país.
Em
1995, nova eleição. Mas as relações entre os diretores já
estavam estremecidas. Inicia-se novo período de crise política no
Sindicato. As lutas foram diminuindo, as ações enfraquecendo, a
categoria começa a perder a confiança no Sindicato. Em
1997, Marquito e Fernando Duarte põem-se como oposição à
direção. Encaminham uma série de denúncias e são mandados de volta à
base, onde organizam uma chapa de oposição. Na eleição de
1998 ganham na Sabesp, perdem por pequena margem na
Eletropaulo e perdem muito no voto dos aposentados. Não tinha como
ser diferente. Os aposentados estavam muito entusiasmados com a nova
sede da rua São Paulo, construída por Jéferson.
Em quase metade da
gestão, Jeferson candidatou-se a vereador às eleições de 2000, pelo
Partido Verde afastando-se do Sindicato.
No segundo turno, e
não eleito, o então presidente assumiu publicamente em rede de
televisão seu apoio à candidatura do hoje prefeito Beto Mansur
(PPB), rechaçando politicamente por defender a municipalização do
saneamento. A atitude isolada do então Presidente Jeferson não foi
aceita pela maioria da diretoria do Sindicato, que acabou por
destituí-lo do cargo. Silvio Leon Alves, que também havia saído
candidato a vereador pelo PC do B, assumiu a presidência até o fim
do mandato, após ter sido derrotado nas eleições para o Sindicato
quando encabeçou a chapa 1.
CHAPA 2 VENCE

Marquito pensou que nunca mais se envolveria com o meio
sindical. Mas sua volta era desejo da base. Muitos o procuravam
constantemente, cobrando uma atitude diante dos atos cometidos pela
diretoria, as negligências, as inconstâncias, os descontentamentos.
Tudo isso foi aflorando, a cobrança nas assembléias passa a ser
contínua por uma tomada de posição. Começou a nascer a idéia de nova
mobilização no sentido de se formar uma nova chapa para 2001, pois
não poderia o Sindicato ficar daquela forma. O resultado foi
taxativo: concorrendo com mais duas chapas, a 2, de Marcos Sergio
Duarte, ganha as eleições.
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